Envolver crianças na dinâmica financeira da família

Participação de uma criança na decisão de compra de uma família pode chegar a quase 80%

Ainda não existe um consenso entre os especialistas sobre a idade ideal em que se devem apresentar conceitos sobre a dinâmica financeira às crianças. Isso porque cada criança passa a se envolver com as questões financeiras em estágios não previamente definidos. Mas um exemplo que mostra a necessidade de introduzir o assunto pode ser extraído da experiência que as crianças têm ao assistirem à televisão porque, cada vez mais, os anunciantes se utilizam desse canal para influenciar o poder de compra das crianças. E isso tem dado certo!

É surpreendente, mas a participação de uma criança na decisão de compra de uma família pode chegar a quase 80%. Por isso, envolver as crianças logo cedo nas dinâmicas financeiras é de extrema importância. Em poder dessa informação, e considerando que as crianças permaneçam em média 3,5 horas diárias em frente à TV, os anunciantes passam a veicular campanhas publicitárias com comunicação direcionada ao público infantil, com produtos e serviços bem diferenciados.

O incentivo às crianças quanto a um planejamento de compras dependerá muito do nível de maturidade delas e da forma como ela já está inserida nas questões financeiras familiares. Nas fases iniciais da infância, a construção da percepção das coisas se dá muito na forma da materialidade. Mas o dinheiro tem perdido esse importante fundamento, pois as experiências de compra e venda se dão de forma cada vez menos física, através de compras pela internet, com o uso de cartão de crédito e em poder de tablets. Por meio de um simples toque, pode-se comprar uma música, um jogo ou qualquer outro produto ou serviço.

Para desmistificar a mágica que se dá pela ausência cada vez mais frequente da materialidade nas experiências de compras, os pais devem iniciar as conversar que envolvam finanças dizendo primeiro de onde vêm os recursos financeiros da família, quão difícil é para obtê-los e como é importante manter reservas financeiras para o atendimento de possíveis gastos extras.

Procure usar exemplos de acordo com a idade da criança e dentro de um ambiente lúdico em que ela consiga facilmente identificar os personagens e demais parâmetros. Há ainda outro bom exemplo que gosto de dar, que se refere à criação de um pote-cofre em local de fácil acesso da criança. Esse pote pode ser chamado pelo nome de uma aquisição que a criança queira fazer, por exemplo: “cofrinho para a compra de um carrinho”. Tem que ser algo por meio do qual a criança compreenda a razão da economia (compra de um carrinho) e perceba o crescimento de sua poupança por meio dos depósitos recorrentes que ela fará com moedas e demais recursos que receba de pais, familiares e amigos. Se a criança for maior, por volta dos 7 anos, pode-se ainda estipular que as economias provenientes do uso correto da luz e da água sejam depositadas nesse cofrinho. Além de tornar a tarefa mais agradável, a criança ainda terá iniciado os seus passos em direção a um consumo consciente.

É muito importante ensinar desde cedo como funciona a relação dinheiro versus compras versus economia/planejamento. Um jeito de apresentar isso à criança, por exemplo, é planejar a próxima compra no supermercado. Ao elaborar uma lista, a criança pode ajudar entendendo as necessidades de consumo de cada produto, a quantidade ideal, entre outros itens. Faça a criança entender que se o produto A estiver acima de determinado valor, a compra será adiada ou substituída por outro produto de qualidade semelhante e preço mais justo.

Quando o assunto é mesada, recomenda-se a prática, desde que seja criada dentro de alguns propósitos visando à iniciação dos modelos mentais financeiros. Por exemplo, conforme já citado, muito cedo as crianças já são tratadas como consumidores e com poder de decisão de compra. A partir desse momento, eu recomendo que os pais e/ou familiares iniciem gradativamente a inserção em ambientes que envolvam transações financeiras. Se o seu filho quiser comprar um sorvete no final de semana, procure planejar com ele as economias que ele deve fazer em sua mesada durante a semana para que ele possa comprar determinado sorvete, brinquedo ou qualquer outro produto de seu interesse. Se ele ganha R$10 semanais e quiser comprar uma bola que custa R$20, deverá economizar recursos de duas semanas para comprá-la. Mas lembre-se: essa prática deve ser adotada com valores pequenos – já que seu caráter é mais instrutivo – e constantemente monitorada por um adulto. Além disso, faça-o abrir a carteira na padaria para comprar um sorvete e veja seu rosto repleto de realização e conquista.

Confira mais algumas dicas sobre como ensinar as crianças a lidar com o dinheiro:

1 – Reflexão familiar: procure refletir sobre os modelos mentais a que vocês (pais) foram submetidos no passado. Essa reflexão “quebra” o efeito cascata que seu filho, sem perceber, possa estar sofrendo. Sua influência, por conta da experiência em períodos turbulentos, pode frear a necessidade de planejamento. Em períodos altamente inflacionários, a ordem era receber o dinheiro agora e sair para gastá-lo o mais rápido possível como forma de proteger o seu poder de compra.

2 – Planejamento: procure elaborar situações de planejamento dentro do ambiente da criança.

3 – Meio Ambiente: os recursos financeiros gastos de forma inapropriada com a compra de itens desnecessários podem também impactar o planeta. Exemplos: consumo de luz inadequado proveniente de luzes acesas sem necessidade, torneira aberta enquanto escova os dentes, banhos muito longos, desperdício de alimentos etc.

4 – Poupança: procure orientar as crianças sobre o hábito da poupança. Se, por exemplo, ela quiser trocar de bicicleta, faça os cálculos necessários para demonstrar qual o volume de economias ela deve ter em determinado período de tempo.

5 – Escolhas: o processo de escolha também não é simples. A criança pode ter se planejado e guardado os recursos necessários para a compra de um modelo mais simples de bicicleta, mas, caso queira outro modelo, deverá adiar a realização da compra hoje por algo que só será realizado no futuro.

6 – Dissociação: não caia na armadilha de que situações de diversão necessariamente estão associadas ao uso do dinheiro. Você pode levar seus filhos a um parque ao ar livre, com um piquenique repleto de alimentos saudáveis, gastando pouco e não se privando da diversão.

7 – Significado: lembre-se de que o significado da palavra preço é bem distinto daquele atribuído à palavra valor. Sábio é aquele que sabe o valor das coisas e não o preço delas.
Autor: André Salermo
“Co-fundador e Diretor Comercial e de Operações da CredMap, empresa incubada dentro do Parque Tecnológico de São José dos Campos. Também é fundador da empresa ASPARTNERS, empresas que resultaram da sua experiência de mais de 20 anos no mercado financeiro, especialmente voltado para crédito (PF e PJ). Nessa experiência executiva, atuou em inúmeros projetos nacionais e internacionais. Atua como professor, palestrante e consultor nas áreas de estratégia e finanças.” E-mail: a.salerno@uol.com.br

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